Quando eu nasci, nenhum anjo safado veio me acompanhando, pois eram tão safados que resolveram comemorar a minha chegada num boteco no caminho.
Quem me acompanhou nessa jornada foi uma simpática cegonha, que já tinha certa experiencia no ofício. Ela se julgava muito superior às outras, não por ser mais velha ou experiente, mas pelo simples fato de sempre estar acompanhada dos tais anjos safados, a quem dava toda cobertura do mundo.
Dizia ela que os bebês que trazia ao mundo eram particularmente especiais (aposto que todas as cegonhas falam isso, humpf!). Mas ela me fez acreditar piamente nisso. E, talvez por sua má influência, eu realmente me ache tão especial. Ao menos pra mim.
Lembro que ela deixou um bilhete pra minha mãe, dizendo que era o ''embrulho'' mais ímpar que ela colocara na porta de alguém. Minha mãe, é claro, acreditou, comprou aquela estória da carochinha e me criou me fazendo me sentir único.
Nesse bilhete vinha também um anexo que deveria ser entregue a mim quando estivesse um pouco mais velho. Era uma receita, parecida com essas de bolo, que no fim a gente tem que misturar, mexer, colocar no forno e degustar com prazer.
Era uma receita de felicidade.
Sim, ganhei uma receita de felicidade, mas como a tal cegonha andava muito na companhia de anjos não muito ortodoxos, ela aprendeu que facilitar demais a minha vida seria ruim: perderia toda a graça e, principalmente, a esperança que em mim ela havia depositado. A receita veio com todos os ingredientes, mas sem uma informação fundamental a qualquer preparo: a quantidade dos ingredientes.
Aprendi que a vida feliz se faz com coisas simples e outras nem tanto, mas também descobri que o tal segredo dessa alquimia é acertar exatamente, não na escolha dos ingredientes, mas na dosagem deles.
Cegonha filha da puta.
Desde então, venho dosando as características boas que carrego junto às não tão nobres. É o perfeito equilibrio entre elas que teoricamente vai me trazer a tão sonhada felicidade.
E uma das coisas mais complicadas na vida é cozinhar para o mundo; talvez seja mais fácil viver do miojo - por enquanto.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009
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Um comentário:
Boa e sutil a edição!
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