Saíram do local juntos e nunca mais se separaram. Viveram uma vida que somente os desprovidos de sentimentos poderiam viver; não faziam amor, apenas copulavam. Não faziam carinhos um no outro, no máximo coçavam mutuamente as picadas dos únicos companheiros que freqüentavam a casa deles: os mosquitos.
Amargurados? Não sei se a palavra descrevia-os bem, pois eram simplesmente eles e estavam juntos fazia muito mais tempo que muito outros casais que se julgavam o oposto deles. E quem entende o que é amargura alheia sem ter estado em suas pelas secas e descamadas pelo tempo decorrido de uma vida sem afeto?
Ficaram velhos juntos sem que dessem sequer um sorriso ou sinal de carinho, mas se respeitavam muito mais que qualquer casal protótipo de felicidade. Nunca se questionaram sobre seus sentimentos e, muito mais que isso, conseguiram arrancar de dentro de si a perspectiva de que o ideal não estava sendo alcançado. Não se preocupavam com os outros, pois dentro de seu mundo eram auto suficientes e bastavam-se.
Ela morreu primeiro. Muitos disseram que foi pelo desgosto da vida que levou. Ele se foi logo depois, porque seu mundo imperfeito aos olhos alheios ficou vazio, ou quem sabe esse mundo se encheu de possibilidades que ele não suportaria contemplar sozinho, e então sua alma preferiu se juntar àquela que por toda sua existência o compreendeu melhor que ninguém.
E morreram felizes para sempre,
Texto publicado em 06/11/2008 no

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