quinta-feira, 16 de abril de 2009

reset V

Eu vou estar aqui pra sempre, eu vou estar aqui para sempre, mesmo repetindo nunca, nunca mais, eu vou estar aqui pra sempre...Assim terminava o bilhete de despedida que ele nunca conseguiu escrever. O último e desnecessário adeus. Ninguém precisa de mais de um e eles já haviam tido vários. O primeiro e definitivo adeus foi dito há muito, muito tempo atrás em alto e claro som, vítreo como qualquer adeus ansioso por liberdade. Divulgado e propagado. Menos do lado de dentro. Foi quando ele parou de dormir. Dormir tb é saber dizer adeus. Dar serenamente adeus ao dia que terminou e pôr-se pronto, inteiro e confiante para o próximo. Aceitar. Acordar vigilante e disposto para o futuro. Pra quem está se afogando, sentindo o tempo correr pra trás, é impossível dormir, o corpo todo pede socorro, implora, a mente não desliga, anseia, receia, negaceia, e o passado vai espalhando hera de ramos sem raízes pelos moldes do pensamento, mesmo os novos já se formam como os antigos, erráticos, vazios, fantasmas. É impossível dormir, move, move, move forward, ver os dias irem se acabando, sem sentir uma vontade incontrolável de jogar-se debaixo de um ônibus. Ele então pegou as horas e fez delas simples sucessões de fatos, um emendado no outro, cinco, dez, dezenove dias valendo por um só, as semanas, os meses, tantos anos e o pensamento ainda sente, e afirmaria até, que foi anteontem.Desculpe por ligar assim tão tarde, ou tão cedo, já que são quatro e meia da manhã, mas eu precisava ouvir a tua voz e te dizer que... era assim que ele gostaria de começar a conversa. A conversa que nunca conseguiu ter, pra não precisar admitir desespero. Jamais vai ter coragem de ligar tão cedo ou tão tarde. Jamais vai ter condição de se perdoar. Mesmo sabendo que tanto silêncio assim pode até matar. Eu teria feito qualquer coisa pra você voltar se achasse que faria diferença!! Me pede e eu faço!! Qualquer coisa... Era o que ele gritaria na frente de todo mundo quando a visse cara-a-cara novamente, aos prantos, unhando os próprios braços na tentativa inútil de calar-se, limpando o nariz na gola, sentindo os joelhos dobrarem, o laivo de vida que um resto de orgulho pode proporcionar esvaecer. É só nisso que ele pensa: quando não está obcecado pela ausência, está obcecado por colar os cacos de sua extensa coleção, o que dá na mesma. É como um emprego de tempo integral, que ainda exige longas horas extras e requalificação constante. Você está apto a segurar essa barra? Tem certeza que agüenta? Não é melhor perder mais alguma coisa importante antes de afirmar que já chega? Você não acha que já perdeu o bastante, acha? Você sabe que ainda precisa muito mais colhões pra aprender, não é? O que você escolhe? É perda bastante pra endurecer a sua casca? Passe no departamento de RH para pegar seu promoção, ok?Eu jurei que não ia mais te escrever, perdoa, é que eu mantenho os olhos desviados mas cabeça não desliga nunca, assim começava o bilhete que ele deixaria na porta dela, uma declaração de amor tão irrevogável quanto os delírios, um bilhete e uma única rosa vermelha já bem aberta, quase despetalando, que murchasse rápido como ele gostaria que esse amor, essa doença, esse susto, esse pavor passasse, desmanchando, murchando, sem deixar nem o cheiro, apodrecendo pra servir de adubo pra um futuro que ela já desistiu de esperar. Não precisa conferir. Vá em frente sem olhar pra trás e não duvide nem por um único segundo. Qualquer coisa. É assim que é. Eu vou estar sempre aqui. Assim terminaria a promessa eterna e definitiva, a estranha dedicatória que nunca viria a ser publicada.

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